A colecção de pintura do Museu José Malhoa constitui um acervo de referência do Naturalismo português. José Malhoa, como patrono do Museu, está nele representado com o núcleo mais vasto da sua obra que se conhece reunido e aqui tem naturalmente um lugar central de destaque na organização da colecção.
José Malhoa
Central também é a importância de Malhoa na cultura portuguesa, pelo entendimento que transmite do seu ofício de pintar, numa obra que percorre os aspectos da ruralidade do país, desde a paisagem à realidade dos costumes e das vivências do quotidiano.
Dedica-se ainda ao retrato, quer dessas figuras populares, quer da burguesia citadina. Rigoroso e directo, não usa eufemismos com os modelos, exprimindo o que vêem os seus olhos e a sua subjectividade.
Entretanto, o seu trabalho vai sendo também atravessado por trechos de imensa frescura de paisagem, de marinha, de recantos de jardins, transformando-os em momentos duma particular poética resultante da interpretação dos fenómenos lumínicos.
O Museu mostra este imaginário comum, revisitado em arte de notáveis recursos técnicos, que aborda com atenta observação a atmosfera e luminosidade dos nossos dias.
Pode apreciar-se um conjunto de trabalhos que incluem o "Retrato da Menina Laura Sauvinet" (1888), "Gritando ao Rebanho" (1891), "Lendo o Jornal" (1905), "Os Bêbados" (1907), "Vinha no Outono" (1914), "Nuvens" (1915), "Primavera" e "Conversa com o Vizinho" (1932) ou "As Promessas" (1933), obra que de algum modo constitui a síntese e o corolário da pintura do Artista.
Um importante conjunto de retratos a pastel, técnica que Malhoa dominou com segurança, completa a sua representação, com relevo para o "Retrato de João Celestino Pereira de Sampaio" (1914), o "Retrato de Agostinho Fernandes" (1925) e o "Retrato de Maria da Nazaré Fernandes" (1926) ou "O Ventura" (1933).
O “Grupo do Leão” e a introdução do Naturalismo
Marques de Oliveira e Silva Porto, bolseiros em Paris, protagonizam a introdução do Naturalismo em Portugal e da novidade que constitui para o País.
De Marques de Oliveira, o óleo "Marinha. Póvoa de Varzim. Impressão" (c. 1884) exprime uma notável liberdade pictural, de nítida aproximação impressionista, que o próprio artista sugere ao denominá-lo “impressão”.
Em torno de Silva Porto, reúne-se o “Grupo do Leão”, representado no Museu, além de Malhoa, por Columbano, António Ramalho, João Vaz, Moura Girão, Henrique Pinto, Ribeiro Cristino e Rodrigues Vieira.
O “Grupo do Leão” surge numa conjuntura que lhe permite protagonizar um significativo momento de viragem no panorama artístico português. Emergia uma geração de pintores cheios de talento, de criatividade e plenos de juventude. Desaparecem os velhos românticos e a estética que acarinham manifesta-se desgastada e desajustada à era moderna, enquanto bolseiros portugueses se detêm em Paris e Barbizon, daí chegando a novidade de outras práticas pictóricas.
É o advento do Naturalismo introduzido por este agrupamento e traduzindo-se num movimento fundamentado na teoria positivista que aponta a experiência directa como princípio e a imitação da natureza e do quotidiano como objecto da arte.
O Naturalismo pictórico assume esta filosofia, por via duma vivência de ar livre, que colhe os motivos do natural e os transpõe para o suporte. Reformula-se o entendimento do visível, numa atitude que aspira à posse da verdade, pelo estudo coerente da cor e da forma.
Os valores lumínicos encontram-se no cerne desta plástica; definem e motivam a pesquisa do “Grupo do Leão”, a sua compreensão da atmosfera e do sol, dos contrastes de sombra-luz, os cambiantes, os matizes e transparências.
A segunda geração naturalista e o retrato
O discurso estético delineado revela ainda a permanência do gosto naturalista da paisagem e de costumes nas gerações que se seguem até meados do séc. XX, em cuja formação vão exercer influência os mestrados de Carlos Reis, de Luciano Freire, de Veloso Salgado, de Joaquim Lopes.
Uma galeria de retrato dá particular relevo à pintura de Eduardo Malta e de Henrique Medina, entre outros que cultivaram o género.
Experiências modernistas
No desenvolvimento do percurso do Museu José Malhoa, abre-se um tempo e um espaço para um núcleo de pintura do Modernismo das primeiras décadas do século XX, de certa forma actualizando as figurações do Naturalismo, quer a nível estilístico, quer técnico, destacando-se na colecção Sousa Lopes, Dordio Gomes, Abel Manta e Eduardo Viana, com a "Composição" ou "Cadeira Alentejana" (1947), natureza-morta fortemente estruturada numa economia formal, de grande efeito visual.
Algumas obras contemporâneas – assinalando-se Palolo e João Vieira - fecham o circuito do percurso da colecção pela pintura portuguesa.